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A Loba

Era noite, uma noite calma,e eu me arrumava para sair sem rumo. Jeans, jaqueta de couro e vontade de tomar alguma bebida. Peguei minha moto. Desci em um boteco copo sujo qualquer. As únicas mesas estavam ocupadas por sujeitos bem apresentáveis, apresentáveis para um psicólogo fazer fama mais tarde com um caso de assassinato.

A garota que lá trabalhava me trouxe uma cerveja, sem que eu pedisse. Na verdade, era costume ir lá, todos os caminhos me levavam àquele bar.  Bebi todo o líquido do copo em um gole, a mente distante; distante mas em lugar algum. Deixo-me levar pela bebida, o cheiro de cigarro de palha que impregna o ambiente, o cheiro de suor e o perfume adocicado da menina. Abro os olhos, estou em um clube.

Não sei porque ele está aberto, ainda mais essa hora. As poucas pessoas que habitam o lugar são alguns casais em cantos escuros, aproveitando a parca luminosidade para dar uns amassos. Ando pela grama baixa, dessa vez com um cigarro na mão. Única coisa que poderia entregar minha presença sempre sorrateira.

O frio se torna mais intenso, mas, aparentemente, só afeta a mim. Me encosto num arbusto, vejo cachorros brincando ao longe ( um cheiro marcante sobe ao ar ), barulhos distantes vindo de uma festa (um cheiro acre), algo se move em uma moita distante, não dou a mínima, ninguém nunca se dirige a mim (um cheiro vermelho), um calafrio, meu ombro congela, congela no formato de uma mordida, tudo começa a ficar escuro, os sentidos se perdem, se confundem. Uma visão sangue, um cheiro vermelho, um sabor macio…

Levanto-me vagarosamente, tudo parece mais calmo. Não tem mais ninguém no clube. Ou nunca teve.

Somente a festa prossegue, com esse som que os jovens chamam de psy e que agora parece fazer algum sentido. Minhas pernas me levam a outro local, uma catedral. Nunca havia reparado em tal construção, passo pela porta entreaberta. Tudo é murmúrios, salas e salas de pessoas conversando baixo. Meus sentidos escapam novamente, começo a sonhar.

É de dia, sinto vontade de sangue, os lobos famintos precisam se alimentar, estamos no mesmo clube, ninguém me vê, os lobos precisam se alimentar, o clube está lotado, os lobos precisam se alimentar, tranco a grade atrás de mim.

Estou na catedral, sinto minhas mão molhadas, estou segurando um objeto metálico que neste momento encontra-se perigosamente perto de um homem. Ele dorme, é um senhor, dorme tão profundamente que baba, sangue, a faca de tão perto já havia perfurado seu coração, ele jazia morto.

Passos em minha direção, ameaçadores, como se passos pudessem demonstrar isso. Passos que me querem, passos conhecidos. Não vejo rostos, mas sei que ceifei suas vidas hoje e eles querem a minha.

Passos que entregam a minha impossibilidade de lutar, fujo. Salas e aposentos, mais sangue sendo derramado, preciso sair deste lugar, dobro a esquerda e abro uma pesada porta. Uma mulher de cabelos negros, o tempo para, ela não se move, está de pé, sabe da minha presença e não se importa, meus instintos dizem que após sua imutável presença está minha saída. Avanço ferozmente, não sei se sou homem ou animal, pulo sobre seu corpo, ela transpira maldade, vira-se no último instante e me fita os olhos, mordo seu pescoço, graciosamente ela desaba. A maldade emana cada vez mais forte, fico inebriado, corro. Ela me segue, não quero vê-la, há ali um desejo que não quero saciar, o lugar fica mais amplo, ela invade a minha mente e me convida para uma dança, sinto o desespero em minha respiração. Todas as portas desaparecem, estou em um salão sem fim. Ela me quer.

Seus movimentos rápidos fazem senti-la, de tão perto, dentro de mim, avisto uma janela, pulo, mesmo sabendo da morte certa. Não caio, vôo. Subo mais alto que posso, vejo a cidade lá embaixo, ainda é noite. Sua voz em minha cabeça diz que não há mal nenhum em nos encontrarmos, me sinto tentado pela sedução e perigo; algo dentro de mim sente uma necessidade desesperadora de fugir, me movo o mais rápido e alto que consigo, ela vem atrás, uma presença negra, uma loba cor de penumbra, impossível de ser vista, uma presença tão forte que parece palpável. Não há como fugir, subo o mais alto que posso, me entrego à sua luxúria, desço de cabeça contra o chão.

Tudo é paz.

*****

Texto baseado em um sonho que tive, acordei com quase todas as lembranças dele, coloquei She Wolf do Megadeth pra tocar em loop e passei 1 hora e 15 minutos escrevendo.

Espero que gostem tanto quanto curti escrever.

 

 

 

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