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BUUMBAR

Lugar amplo, cadeiras, mesas e um ventilador de teto.

 

Um homem, camisa social, olhar cansado; em sua mão direta descansa, quase como um apoio, num copo de cerveja.

 

Arranjos de flores: amarelas, brancas; sempre bem cuidadas.

 

Duas mulheres, uma conversa animada, mais uma mentira inocente sobre algo que nunca aconteceu.

 

Aquário ao fundo, peixes coloridos habitam um navio naufragado.

 

Um casal, olhares apaixonados, beijos molhados, mãos sobre as coxas que o vestido curto deixou descoberto.

 

Paredes de tijolos, vigas de madeira escura.

 

 Uma senhora, jóias caras que nalgum dia tiveram um grande glamour, uma pose que anos atrás seduziria jovens incautos.

 

Jukebox troca o disco.

 

 As crianças vasculham o vão entre o balcão à procura de algum tesouro escondido.

 

Luzes vermelhas piscam BUUMBAR.

 

Um garçom anda com pressa para entregar um pedido atrasado.

 

Labaredas sobem de um prato flambado.

 

O cozinheiro reclama do calor.

 

O gás está vazando.


A Loba

Era noite, uma noite calma,e eu me arrumava para sair sem rumo. Jeans, jaqueta de couro e vontade de tomar alguma bebida. Peguei minha moto. Desci em um boteco copo sujo qualquer. As únicas mesas estavam ocupadas por sujeitos bem apresentáveis, apresentáveis para um psicólogo fazer fama mais tarde com um caso de assassinato.

A garota que lá trabalhava me trouxe uma cerveja, sem que eu pedisse. Na verdade, era costume ir lá, todos os caminhos me levavam àquele bar.  Bebi todo o líquido do copo em um gole, a mente distante; distante mas em lugar algum. Deixo-me levar pela bebida, o cheiro de cigarro de palha que impregna o ambiente, o cheiro de suor e o perfume adocicado da menina. Abro os olhos, estou em um clube.

Não sei porque ele está aberto, ainda mais essa hora. As poucas pessoas que habitam o lugar são alguns casais em cantos escuros, aproveitando a parca luminosidade para dar uns amassos. Ando pela grama baixa, dessa vez com um cigarro na mão. Única coisa que poderia entregar minha presença sempre sorrateira.

O frio se torna mais intenso, mas, aparentemente, só afeta a mim. Me encosto num arbusto, vejo cachorros brincando ao longe ( um cheiro marcante sobe ao ar ), barulhos distantes vindo de uma festa (um cheiro acre), algo se move em uma moita distante, não dou a mínima, ninguém nunca se dirige a mim (um cheiro vermelho), um calafrio, meu ombro congela, congela no formato de uma mordida, tudo começa a ficar escuro, os sentidos se perdem, se confundem. Uma visão sangue, um cheiro vermelho, um sabor macio…

Levanto-me vagarosamente, tudo parece mais calmo. Não tem mais ninguém no clube. Ou nunca teve.

Somente a festa prossegue, com esse som que os jovens chamam de psy e que agora parece fazer algum sentido. Minhas pernas me levam a outro local, uma catedral. Nunca havia reparado em tal construção, passo pela porta entreaberta. Tudo é murmúrios, salas e salas de pessoas conversando baixo. Meus sentidos escapam novamente, começo a sonhar.

É de dia, sinto vontade de sangue, os lobos famintos precisam se alimentar, estamos no mesmo clube, ninguém me vê, os lobos precisam se alimentar, o clube está lotado, os lobos precisam se alimentar, tranco a grade atrás de mim.

Estou na catedral, sinto minhas mão molhadas, estou segurando um objeto metálico que neste momento encontra-se perigosamente perto de um homem. Ele dorme, é um senhor, dorme tão profundamente que baba, sangue, a faca de tão perto já havia perfurado seu coração, ele jazia morto.

Passos em minha direção, ameaçadores, como se passos pudessem demonstrar isso. Passos que me querem, passos conhecidos. Não vejo rostos, mas sei que ceifei suas vidas hoje e eles querem a minha.

Passos que entregam a minha impossibilidade de lutar, fujo. Salas e aposentos, mais sangue sendo derramado, preciso sair deste lugar, dobro a esquerda e abro uma pesada porta. Uma mulher de cabelos negros, o tempo para, ela não se move, está de pé, sabe da minha presença e não se importa, meus instintos dizem que após sua imutável presença está minha saída. Avanço ferozmente, não sei se sou homem ou animal, pulo sobre seu corpo, ela transpira maldade, vira-se no último instante e me fita os olhos, mordo seu pescoço, graciosamente ela desaba. A maldade emana cada vez mais forte, fico inebriado, corro. Ela me segue, não quero vê-la, há ali um desejo que não quero saciar, o lugar fica mais amplo, ela invade a minha mente e me convida para uma dança, sinto o desespero em minha respiração. Todas as portas desaparecem, estou em um salão sem fim. Ela me quer.

Seus movimentos rápidos fazem senti-la, de tão perto, dentro de mim, avisto uma janela, pulo, mesmo sabendo da morte certa. Não caio, vôo. Subo mais alto que posso, vejo a cidade lá embaixo, ainda é noite. Sua voz em minha cabeça diz que não há mal nenhum em nos encontrarmos, me sinto tentado pela sedução e perigo; algo dentro de mim sente uma necessidade desesperadora de fugir, me movo o mais rápido e alto que consigo, ela vem atrás, uma presença negra, uma loba cor de penumbra, impossível de ser vista, uma presença tão forte que parece palpável. Não há como fugir, subo o mais alto que posso, me entrego à sua luxúria, desço de cabeça contra o chão.

Tudo é paz.

*****

Texto baseado em um sonho que tive, acordei com quase todas as lembranças dele, coloquei She Wolf do Megadeth pra tocar em loop e passei 1 hora e 15 minutos escrevendo.

Espero que gostem tanto quanto curti escrever.

 

 

 


18° aqui fora

Um dia minha amiga Mari, ex(?) redatora do malvadas.org, me contou que escrevia contos eróticos, por sinal muito bons, e perguntou se eu não tinha vontade de escrever. Nunca havia tentado, porém aceitei o desafio no dia 06 de novembro de 2010. O texto tomou um rumo diferente do esperado, contudo eu gostei muito. Apesar de não ter a mínima ideia do que irá virar caso dê prosseguimento, gostaria de compartilhar com vocês meu esboço:

18° aqui fora

Quinta, 19:40, chego em casa cansado do trabalho, planos para noite são as 6 cervejas que comprei no mercado e o meu querido sofá, uma Tv para distrair. Telefone toca, tiro-o do gancho sem a menor pretensão de alguém salvar a minha noite, uma voz feminina, triste – Quem bom que está em casa… – Silêncio. – Oi, quem é? – Um breve silencio, um soluço e a resposta – Aparece na janela, veja se ainda lembra de mim.

Ainda confuso e com a cerveja recém aberta em mãos vou para a janela, antes uma olhada no espelho, um sorriso ensaiado e uma crescente preocupação com aquela voz ligeiramente melancólica. Surjo no 3º andar, vento frio bate no peito nu, lá embaixo uma garota, cabelos loiros, vestido vermelho, em uma das mãos uma garrafa de champagne na outra as chaves do carro, um sorriso envergonhado e ao mesmo tempo suplicante. Ela me lembra muito uma garota do colégio, caramba, qual o nome? Anos que não a vejo, desde… – Heeeey, você nem lembra de mim, né?- Ela se vira rapidamente e começa a ir embora, andar arrastado. Fico alguns segundos parado, perplexo, grito algo como -Me espera – e saio correndo pelas escadas para encontra-la antes que se vá. Alcanço-a quando está para abrir a porta do carro, New Beetle preto. Puxo levemente seu braço, pele macia, cor alva, ela sem dizer nada me dá um abraço forte. Sinto seu perfume levemente doce e delicado, afago seus cabelos. Ela se afasta preguiçosamente de mim, dá um sorriso e me rouba um beijo; agora eu me lembro, tivemos um rolo no 2º ano, nada sério, eu estava querendo curtir a vida e ela querendo um relacionamento, preferi não machucá-la e me afastei.

– Oi, a quanto tempo? Realmente uma surpresa te ver.

– É, acho que uns 6 anos né? Pelo visto ainda mora na mesma casa.

– Sempre gostei desse bairro, não quer entrar?

– Pode ser, e você não está em trajes para uma noite como essa; caramba deve estar fazendo uns 18º aqui fora.

Ofereço meu braço para ela, tomo uns goles de cerveja e converso umas amenidades, até chegarmos no apartamento.

[…] talvez continue no próximo episódio