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Entre nós

Não gosto de sair de casa, prefiro meus livros às pessoas, me perder em meus pensamentos. O telefone toca, me contam que talvez você vá à festa de hoje a noite, faz tempo que não te vejo, que não te observo secretamente. Coração acelera, as pernas tremem. Me arrumo em um pulo, você nunca reparou em mim mesmo. Chego cedo, estudo o lugar. Gosto de observar as coisas. Noto você chegando, aquela cara de bobo que adoro, carinha de quem está sempre perdido. Disfarço, puxo papo com alguém. Te fito discretamente.

 

Encontro-te na festa: linda, vestido azul comportado, sorrindo com umas meninas. Reparo nos seus olhos, boca, seu jeito que sempre gostei. De assalto me vem a lembrança de um sonho: nós dois cara a cara, o silêncio constrangedor que surge quando o assunto acaba, quando a vontade transpira, você tão perto e eu tão distante, o nosso olhar… uma eternidade.

 

Apenas sorrio, como se estivesse entretida com a conversa, mas sorrio de você, tão deslocado quanto eu. Talvez fosse interessante te conhecer, por um instante tocar sua mão, sentir de perto o perfume. Volto para a conversa.

 

Preciso de uma cerveja, algo para ficar na mão, desisto no meio do caminho, quero um cigarro, um whisky, quero sentar. Saí de casa sem propósito, queria espairecer, te encontrar me deixou perdido. Acendo um cigarro (se importa que eu fume?), apago o cigarro. Olho para o céu, nenhuma estrela, falta inspiração, na verdade coragem, para falar com você.

Respiro fundo, levanto (não penso) e vou caminhando ao seu encontro (o que estou fazendo?). Olhos decididos, nada a perder.

 

Lá vem você (em minha direção?), olho em volta, peço licença (me sinto zonza).


BUUMBAR

Lugar amplo, cadeiras, mesas e um ventilador de teto.

 

Um homem, camisa social, olhar cansado; em sua mão direta descansa, quase como um apoio, num copo de cerveja.

 

Arranjos de flores: amarelas, brancas; sempre bem cuidadas.

 

Duas mulheres, uma conversa animada, mais uma mentira inocente sobre algo que nunca aconteceu.

 

Aquário ao fundo, peixes coloridos habitam um navio naufragado.

 

Um casal, olhares apaixonados, beijos molhados, mãos sobre as coxas que o vestido curto deixou descoberto.

 

Paredes de tijolos, vigas de madeira escura.

 

 Uma senhora, jóias caras que nalgum dia tiveram um grande glamour, uma pose que anos atrás seduziria jovens incautos.

 

Jukebox troca o disco.

 

 As crianças vasculham o vão entre o balcão à procura de algum tesouro escondido.

 

Luzes vermelhas piscam BUUMBAR.

 

Um garçom anda com pressa para entregar um pedido atrasado.

 

Labaredas sobem de um prato flambado.

 

O cozinheiro reclama do calor.

 

O gás está vazando.


Internet e Relacionamentos

Estava pensando outro dia, mais precisamente ontem, sobre como a internet e os meios de comunicação tem o poder de distanciar as pessoas. Isso mesmo: distanciar.

Acredito que a capacidade que ela possui de aproximar as pessoas todos nós já percebemos ou conhecemos. Quando temos alguém especial que mora longe, através dela nos mantemos ” a par” dos acontecimentos e relembramos velhas historias. O mesmo acontece com o telefone, que propicia uma conversa mais rápida sem o “delay” na resposta e ainda é muito usado, apesar da supremacia da internet.

Agora o que muitos não percebem é o fator distanciador desses meios de comunicação. Antigamente, quando não tínhamos nada disso, pelo menos a internet, éramos mais próximos dos nossos amigos, sempre marcávamos saídas de fim de tarde ou encontros na casa de alguem. Isso vem se perdendo por conta dos orkuts e “msn’s” da vida. O sentimento de saudade é falsamente suprido pelo contato virtual, mascarado e jogado em algum canto escuro.

Em suas “bolhas” as pessoas se distanciam das outras mas, mantendo a impressão de ainda estarem contidas em algum meio social, elas gastam boa parte do tempo nesta auto-ilusão, seja por medo de frustrar-se, timidez, ou não ser aceito em determinado grupo.

Podemos perceber vários casos de pessoas que tem dificuldades de comunicação e de relacionamento por que não tem o costume de se comunicar pessoalmente. Poderia ser esse um grande problema a ser encarado pelos psicólogos no futuro? Eu aposto que sim.