Arquivo do mês: julho 2012

Eu perguntei para o velho se ele queria morrer (e outras estórias de amor)

 

Em minha última viagem, como de praxe, resolvi passar em uma livraria, desta vez na rodoviária. Dentre várias opções de best-seller e outros livros mais eu encontrei em um canto uma prateleira com vários livros a preços convidativos, e me propus a comprar um bom livro gastanto a menor quantia em dinheiro. Meus olhos encontraram em sua primeira vista um livro que me chamou atenção pelo título: “Eu perguntei para o velho se ele queria morrer”, de um autor para mim desconhecido (José Rezende Jr.). Ao preço de 5 dinheiros fui levado a um outro mundo com sua literatura, que, no conjunto de contos, um me chamou a atenção e aqui segue:

Quase nada

A mulher destoa da paisagem. As coisas, os bichos magros, as coisas desmilinguidas, tudo é cor de poeira. A mulher também tem cor de poeira, mas as flores estampadas no vestido destoam da paisagem. Na paisagem não há flores, não há chuva para as flores, a pouca chuva que chove, quando chove, serve às gentes e ao que se come. Por isso as flores no vestido da mulher destoam tanto de tudo, cheiram a desperdício. De tempos em tempos a mulher passa a língua quase seca pelos lábios ressequidos, sem tirar os olhos do nada. Fora esse gesto, a mulher não se move, não se moveria sequer para espantar as moscas, caso houvesse, mas não há moscas, nada voa, anda ou rasteja. Tudo é aridez e imobilidade. Só a mala aos pés da mulher serve de lembrança, a vaga lembrança, de que nalgum lugar, nalgum tempo, longe, muito longe, existe vida em movimento.

O homem é quase a paisagem. Formam o homem e paisagem um conjunto coeso, árido. Tem o rosto e as roupas tão cor de poeira antiga que os passantes, se por ali alguém passasse, sequer distinguiriam o homem da paisagem. Mas o homem não faz mesmo questão de ser visto. Mimetismo sertanejo: camuflado na secura, o homem também é seco, o homem só não é todo ele a própria paisagem porque a paisagem é estática, nela nada se move, não há vento, falta oxigênio, as pessoas, a plantação e os bichos respiram o mínimo necessário, a vida se economiza; a morte não. O homem só não é todo ele a paisagem porque a paisagem é estática, enquanto ele, o homem, movimenta uma das mãos, a que afia a faca na pedra. O movimento é quase imperceptível, a mão se move como se não se movesse, é mínima a diferença entre o movimento da mão do homem e a imobilidade do tempo. Nada tem pressa. Nem a mulher que vai embora.

É pequena a distância entre os dois seres semi-inanimados, a mulher que vai embora e o homem que fica. A mulher, acocorada à beira da estrada de chão, à espera. O homem, à porta do casebre de taipa, outra espera. A casa é pequena, o teto de palha é muito baixo, mas a gente que ali vive é uma gente pequena, não carece de mais espaço, nem de altura. A distância entre o terreiro do casebre de pau-a-pique, onde o homem espera , e a beira da estrada de terra, onde a mulher espera, também é pequena, tão pequena que a vista alcança. Do lugar onde afia a faca o home avista a mulher, ela de costas, o vestido estampado com flores supérfluas destoando da paisagem. De frente para a estrada, mas de costas para a casa, a mulher não vê o homem. Também não se viam muito quando frente a frente, mas agora que a mulher vai embora fica no ar, além do silêncio, da poeira e do paradeiro do mundo, um gosto amargo de tempo morto.

A mala aos pés da mulher é antiga; mais que antiga, é velha. À falta de móveis na casa, era ela quem servia de mesa, ou, antes, de um aparador para coisas inexistentes, visto que por ali quase não existiam coisas. Agora, assim, aos pés da mulher, na beira da estrada, na véspera da viagem, a mala retorna à serventia original. Mas é grande demais, pesada demais para o quase nada que a mulher pequena e magra leva embora consigo. A mulher tem dois vestidos cor de poeira, e ambos flutuam dentro da mala grande e vazia; o terceiro, de festa, estampado de flores, é sua roupa do corpo na hora em que vai embora. A mulher quase se arrepende, antes fizesse uma trouxa, menor, mais leve, condizente com seu tipo físico e a bagagem pouca, deixasse a mala para trás, à guisa de mesa.Ganhariam a mulher, pela economia de esforço, e o homem, pela manutenção do mobiliário parco, mas “ganhar” é verbo tão irregular que nenhum dos dois conjuga. A mulher vai embora com a mala pesada e não se torna mais rica por isso; o homem é que fica mais pobre, sem a mesa onde pousar objeto nenhum, a não ser os cotovelos que sustentam a cabeça pesada.

Nenhuma nuvem, nenhum sinal de chuva nem agora nem para o ano. Assim tão azul, o céu é como se fosse o inferno.

Sentado no terreiro, olhando para a estrada, o homem está de frente para as flores do vestido da  mulher, mas de costas para a casa e, portanto, para o retrato na moldura oval que enfeita o único cômodo da casa. O retrato foi tirado em preto-e-branco, mas o homem e a mulher deixaram-se colorir pela mão do fotografo viajante, num dia muito antigo. O homem não vê, talvez nem se lembre, mas o vestido de festa da mulher que vai embora é o mesmo que veste a mulher da moldura oval. O homem do retrato usa terno, mas é um terno de mentira, inventado pela mão do fotógrafo-artista.  O home de verdade nunca teve terno, foi preciso que o retratista pitasse sobre o dorso desse homem uma roupa de festa. Já o vestido da mulher do retrato existiu, existe, é real, é a sua roupa do corpo na hora em que vai embora. Mas reparando bem, caso alguém reparasse, há uma leve diferença no tom das flores. Ao manusear o pincel de pelo de cabra, o pintor foi fiel às flores do vestido, mas as flores do vestido verdadeiro hoje estão mais vivas ( tão vivas que destoam da paisagem ), talvez porque, exposto ao tempo, o retrato envelheceu e as flores da pintura desbotaram. Já o vestido verdadeiro, com suas flores, ao contrário, continuam intacto, de tão guardado para tantas festas inacontecidas.

A faca tem cabo de madeira boa; a lâmina relampeia, ofende as vistas de tão afiada. Inútil afia-la mais do que isso, mas o homem insiste, persiste,  num ritmo quase imóvel. A pedra onde o homem afia a faca é áspera, faz bem ao gume da lâmina. As manchas antigas de sangue retratam a outra serventia da pedra: na falta de árvore onde pendurar e imolar os bodes, porque a ultima árvore seca virou lenha para cozinhar quase comida nenhuma, o homem deita o bicho na pedra e o degola com a lâmina que a mesma pedra afiou. Mas já não há bodes a serem mortos; faz tempo, o homem matou a ultima criação, da criação só restou o sangue antigo impresso na pedra. Mesmo assim o homem insiste, persiste, afia a lâmina da faca, move a mão contra a paisagem estática talvez apenas para não ser, todo ele e de uma vez por todas, a própria paisagem árida.

A mulher passa a língua quase seca pelos lábios ressequidos. A mulher tem sede e os olhos postos sobre o nada. O vazio. Não olha para trás, mas sabe que atrás de si, a uma distância de quase nada, há um homem sentado à porta da casa, e que atrás desse homem existe um outro homem ( e no entanto o mesmo ) trajando um terno inventado, e ao lado desse homem uma mulher vestida de flores desbotadas, os dois, a mulher e o homem, imitando felicidade numa moldura oval. A distância entre o homem e a mulher verdadeiros, tão pequena, é imensa: a mulher a beira da estrada; o homem a beira do abismo. A mulher não olha para trás, mas pressente o homem, escuta o barulho áspero da faca contra a pedra. O barulho, de tão cadenciado, já faz parte do silêncio.

Num repente o silêncio se cala. O motor troveja, o ônibus velho cobre a paisagem com uma nuvem demorada de fumaça e mais poeira. A nuvem veste a mulher e o vestido, até as flores do vestido. Tudo agora é cor de poeira. A mulher já não destoaria da paisagem, se ainda fizesse parte da paisagem.

O homem ouve o ônibus cada vez mais perto, engole a fumaça, vê a nuvem de poeira vestindo a mulher, ouve o ônibus cada vez mais longe, vê a poeira acalmar-se, acomodando-se de novo e aos poucos à paisagem inerte. Mas a paisagem agora é outra, ainda mais árida, ainda mais vazia sem a mulher que foi embora. O homem para de afiar a faca na pedra manchada de morte, escuta o derradeiro estalido da ultima lenha que crepitava no fogão. Tudo agora é silêncio, poeira imobilidade. Só a pedra respira

 

 

 

 

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